O aumento anormal da temperatura de mancal costuma acender um alerta imediato nas equipes de manutenção. Em muitos casos, o primeiro componente investigado é o rolamento, mas essa análise isolada pode limitar o diagnóstico.
Isso acontece porque o mancal deve ser entendido como um conjunto mecânico. O aquecimento pode estar relacionado ao rolamento (ou à bucha), mas também à lubrificação, à fixação ou ao alinhamento e ao desbalanceamento do sistema.
Um valor pontual de temperatura, isolado, não é suficiente para essa avaliação: é preciso considerar o tipo de mancal e observar como o comportamento térmico evolui ao longo do tempo.
Neste artigo, você vai entender as diferenças entre mancais de rolamento e de deslizamento, conhecer temperaturas de referência e ver como o monitoramento da tendência térmica ajuda a identificar falhas antes de uma parada não programada.
Qual é a diferença entre mancal de rolamento e mancal de deslizamento?
Os mancais podem utilizar diferentes princípios para sustentar o eixo, suportar cargas axiais e radiais e reduzir o atrito. Essa diferença construtiva influencia a lubrificação, a tolerância ao desalinhamento e o comportamento térmico do conjunto.
- Mancal de rolamento: utiliza elementos rolantes, como esferas ou roletes, entre o eixo e o alojamento. Por sua construção, tolera menos desalinhamento e exige atenção à montagem e ao posicionamento dos componentes.

- Mancal de deslizamento (bucha): utiliza uma bucha, geralmente de bronze, cuja eficiência depende da formação de uma película de óleo entre o eixo e o mancal. Esse filme lubrificante evita o contato direto entre as superfícies e sustenta o eixo durante a operação. É mais utilizado em equipamentos de grande porte e baixa rotação, como turbinas.

Além disso, o mancal de deslizamento apresenta um comportamento térmico diferente, pois o cisalhamento do filme de óleo gera calor durante a formação da sustentação hidrodinâmica.
Isso permite que esses mancais operem normalmente em faixas de temperatura mais altas, o que reforça a necessidade de interpretar a temperatura de mancal conforme o tipo de construção, a aplicação e o comportamento térmico habitual do equipamento.
Qual é a temperatura de referência para mancal de rolamento e de deslizamento?
A temperatura de mancal não deve ser avaliada a partir de uma única faixa para todas as aplicações.
A tabela a seguir apresenta referências aproximadas para cada tipo de mancal. No entanto, os limites definidos pelo fabricante e as condições habituais de operação do equipamento devem prevalecer na análise.
| Tipo de mancal | Referência térmica | Como interpretar |
| Mancal de rolamento | Em ambientes industriais comuns, muitos conjuntos operam normalmente até 70°C ou na faixa de 70 a 80 °C, embora alguns projetos trabalhem acima desses valores. Alguns rolamentos podem operar com mais de 120°C por curtos períodos. | A faixa não representa um limite universal. A temperatura vai depender principalmente do tipo de rolamento usado no mancal. Deve ser comparada com a especificação do fabricante e com o histórico do ativo. |
| Mancal de deslizamento | Pode operar normalmente em faixas mais altas, conforme o projeto e o sistema de lubrificação. | Nesse caso, a estabilidade da tendência térmica costuma ser mais relevante do que um valor isolado, sem substituir os limites definidos pelo fabricante. |

O que causa o aquecimento de mancais?
O aumento da temperatura de mancal pode ter diferentes origens. Por isso, o comportamento térmico deve ser analisado em conjunto com vibração, corrente, carga e histórico operacional.
Veja as principais causas a seguir:
Lubrificação insuficiente
A quantidade insuficiente de lubrificante reduz a capacidade de separar as superfícies em movimento e aumenta o atrito. Como resultado, a temperatura pode subir de forma progressiva durante a operação.
No entanto, o excesso de óleo ou graxa também pode elevar a temperatura devido à agitação do lubrificante, o que reforça a importância de avaliar a quantidade aplicada, a viscosidade e as condições do sistema de lubrificação.
Sobrecarga
Quando o equipamento opera acima da carga prevista, os esforços sobre o eixo e os mancais aumentam. Enquanto essa condição permanece, o conjunto pode apresentar elevação contínua de temperatura.
Em equipamentos acionados por motor elétrico, o aquecimento também pode aparecer acompanhado de aumento da corrente. A confirmação exige comparar temperatura, corrente e carga do processo com o padrão habitual do equipamento.
Velocidade
Os mancais são projetados para operar dentro de uma determinada faixa de velocidade (rpm, rotações por minuto), ou seja, da velocidade de rotação do eixo.
Quanto maior a velocidade, mais pontos de contato ocorrem entre as superfícies, o que aumenta a dissipação de energia e eleva a temperatura.
Desalinhamento
O desalinhamento altera a distribuição dos esforços sobre o eixo, o acoplamento e os mancais. Dessa forma, o aumento da temperatura pode ocorrer em conjunto com alterações nos níveis e no espectro de vibração.
Componentes relacionados à frequência de rotação podem aparecer, mas não devem ser interpretados isoladamente, pois o padrão varia conforme o tipo de desalinhamento e a configuração da máquina.
Folga inadequada na montagem
Folgas incorretas entre eixo, rolamento, bucha e alojamento podem alterar a distribuição de carga e aumentar o atrito interno. Dependendo da severidade e das condições de operação, a temperatura pode apresentar variações ou permanecer acima do comportamento habitual.
Além disso, ajustes inadequados podem gerar vibrações, impactos e desgaste irregular: a avaliação deve considerar as tolerâncias de montagem e as especificações do fabricante.
Todas essas causas levam ao aumento de temperatura, e essa variação se torna um indicador importante da condição do componente. Ao medir e acompanhar a temperatura de um mancal, é possível identificar problemas, defeitos ou falhas em estágio inicial, o que torna a detecção antecipada de defeitos um dos principais objetivos da manutenção de mancais.
Como o monitoramento contínuo permite a detecção antecipada de falhas?
Uma verificação de temperatura feita em rota de inspeção, ou uma medição pontual em uma preditiva offline, mostra apenas o valor do mancal naquele instante específico: uma foto do passado.
Já com a manutenção preditiva online da Dynamox, o monitoramento de temperatura é contínuo e permite observar como esse valor evolui ao longo dos dias, identificar mudanças graduais no comportamento do ativo e traçar tendências para antecipar ações.
Considere um exemplo hipotético: sob condições semelhantes de carga e temperatura ambiente, um mancal que costuma operar próximo de 58°C passa a registrar médias semanais de 61°C, 64°C e 67°C.
Esses valores, analisados isoladamente, não confirmam uma falha. No entanto, a elevação persistente indica uma mudança no comportamento térmico que merece investigação.
Veja um exemplo de como funciona o monitoramento na plataforma Dynamox:

Uma ronda manual realizada apenas uma vez por mês registraria somente o valor de 67 °C, sem mostrar quando o aquecimento começou ou com que velocidade evoluiu.
Com sensores instalados permanentemente, a equipe acompanha os dados hora a hora, vê o histórico, configura alertas e investiga o desvio antes que a condição se agrave.
O monitoramento de mancal industrial não depende apenas de um limite fixo: ele também considera a taxa de aumento, a duração do desvio e a diferença em relação ao comportamento habitual do equipamento.
Como cruzar a temperatura de mancal e vibração no diagnóstico?
A temperatura indica que o comportamento térmico do mancal mudou, mas não revela sozinha a origem do desvio. Cruzar essa informação com a análise de vibração reduz a ambiguidade do diagnóstico.
Com a análise de vibração, é possível verificar o comportamento vibratório do mancal e comparar a vibração teórica com a real, com base em parâmetros de referência como os previstos na ISO 20816.
As informações captadas pela vibração de um mancal por um sensor Dynamox revelam o que está causando a anomalia, permitindo que o time de manutenção atue de forma antecipada.
Algumas análises podem ser feitas em conjunto, como:
- Temperatura em elevação sem aumento relevante nos indicadores globais de vibração: pode direcionar a investigação para lubrificação, carga ou dissipação térmica. Ainda assim, vale verificar as faixas de alta frequência, que podem apresentar alterações relacionadas ao atrito e à condição do lubrificante.
- Temperatura e vibração em elevação: reforçam a necessidade de investigar condições mecânicas, como desalinhamento, folga ou desgaste avançado. Nesse caso, o espectro, a forma de onda e o histórico operacional ajudam a diferenciar as hipóteses.
O cruzamento não confirma isoladamente a causa da falha, mas permite priorizar ações e orientar uma análise mais precisa do mancal.
Como transformar sinais térmicos em decisões de manutenção?
A temperatura de mancal oferece um indicativo importante sobre a condição do ativo, mas seu valor cresce quando o conjunto é analisado de forma completa, considerando o rolamento, a lubrificação, a montagem, o alinhamento, a carga e o histórico operacional, em vez de atribuir o aquecimento a uma única causa.
Assim, ao combinar tendência térmica e vibração, a equipe aumenta a confiabilidade do diagnóstico, identifica desvios com mais antecedência e direciona as ações para as hipóteses mais prováveis.
Como resultado, a manutenção ganha tempo para planejar intervenções, proteger ativos críticos e reduzir o risco de parada não programada.
A Dynamox integra sensores sem fio de vibração e temperatura, com coleta automatizada e remota, reunindo em uma única plataforma o histórico operacional, alertas, priorização por risco, ferramentas de análise e a inteligência artificial do DynaDetect, que detecta falhas e apoia análises mais profundas.

Com a Dynamox Platform, equipes de confiabilidade e PCM acompanham grandes volumes de ativos, priorizam riscos e transformam dados contínuos em decisões de manutenção.
Fale com os especialistas da Dynamox e descubra como estruturar o monitoramento contínuo de mancais, ou de qualquer outro ativo crítico da sua operação.
Perguntas frequentes sobre temperatura de mancal
O sensor deve ser instalado em um ponto que represente de forma consistente o comportamento térmico do conjunto, de preferência em partes rígidas e fixas. Em mancais de rolamento monitorados externamente, a instalação costuma ser feita no alojamento, próxima ao rolamento, em uma superfície que ofereça boa transmissão térmica.
Em mancais de deslizamento críticos, o projeto pode prever termopares ou sensores de resistência incorporados à sapata, próximos à superfície de trabalho. Em todos os casos, prevalecem as orientações do fabricante do equipamento e do sistema de monitoramento.
Não existe uma variação única aplicável a todos os mancais: o alerta deve considerar o comportamento habitual do ativo, o tipo de mancal, a carga, a velocidade, a temperatura ambiente, o ponto de medição e os limites definidos pelo fabricante.
Uma elevação persistente em relação à linha de base pode ser relevante mesmo antes de a temperatura alcançar um limite absoluto. Por isso, a configuração deve combinar a tendência térmica com os limites de proteção previstos para o equipamento.
Sim. Mudanças na temperatura ambiente afetam a dissipação de calor e podem alterar a leitura mesmo sem uma falha no conjunto, o que torna necessário comparar períodos com condições operacionais semelhantes. Sempre que possível, a equipe deve analisar a temperatura do mancal em conjunto com a temperatura ambiente, a carga e a velocidade do equipamento.
Em condições semelhantes de carga, velocidade e temperatura ambiente, o comportamento térmico normal tende a permanecer próximo ao histórico do equipamento. Já uma possível tendência de falha pode aparecer como uma elevação persistente, uma mudança na velocidade de aquecimento ou um novo patamar de operação.
O monitoramento contínuo facilita essa diferenciação porque registra a evolução da temperatura, permitindo à equipe identificar desvios graduais que poderiam passar despercebidos em uma medição pontual.